Paredes de Coura: texto e fotos dos Sex Pistols

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Vejam o texto e algumas fotos da actuação dos míticos do punk Sex Pistols em Paredes de Coura no 1º dia (cortesia BLITZ)

31 anos é muito tempo. Tempo suficiente, pelo menos, para que o contexto de uma banda ou de um fenómeno cultural se altere significativamente.

Já todos tínhamos lido mil vezes que, no primeiro regresso aos concertos, os Sex Pistols assumiram que tinham voltado pelo dinheiro, pelo “filthy lucre”. E todos sabemos que desde então – desde 1996, portanto – a motivação dos ingleses não mudou drasticamente. Johnny Rotten até já aproveitou para arranjar os dentes.

Não deixa, no entanto, de causar alguma estranheza que o primeiro concerto dos Sex Pistols em Portugal aconteça num ambiente “controlado”. Lista de fotógrafos autorizados a tirar o retrato a Lydon, Glen Matlock, Steve Jones e Paul Cook; roadies deveras preocupados com o feedback de um dos microfones e algumas famílias entre a multidão que, pela meia-noite e meia, enchia o anfiteatro natural de Paredes de Coura.

O arranque do concerto não esclareceu as dúvidas de quem não sabia que Sex Pistols eram estes do Verão de 2008, mais de 30 anos volvidos sobre a pedrada no charco Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols .

“Good fucking evening”, começou por saudar Johnny Rotten, descansando todos aqueles que compraram bilhete para ver punks a sério. Mas logo a seguir completa, de mão no peito: “heart, love!”. Podia ser um hippie a falar. Alvo de todas as objectivas, inclusive da da BLITZ, Johnny Rotten movimenta-se na beira do palco com movimentos mínimos, dedinhos indicadores espetados no ar como se dançasse no baile da terrinha. O cabelo continua espetado e os olhos arregalados, mas as calças vermelhas aos quadrados fazem lembrar uma das mais estranhas modas deste ano em Paredes de Coura: passear de calças de pijama.

“Pretty Vacant” abre, como estava previsto, o concerto, e o coro certeiro da multidão, bem como dezenas de copos atirados ao ar em plena euforia não deixam margem para dúvidas: Paredes de Coura está com os Sex Pistols. Mas os Sex Pistols, estarão com Paredes de Coura?


Desde queixas sobre o som – “your sound is fucking shit” – a monólogos repetitivos e algo absurdos, como os contínuos louvores a Alá, a postura de Johnny Rotten em palco foi desconcertante. A banda percebeu que o público não sabia muito bem o que pensar: “Somos assim tão maus?”, perguntou Rotten após uma “Submission” a meio gás. A resposta foi ambígua.

Houve, é claro, momentos de natural regozijo: em “Holiday In The Sun” Rotten não se escusou a referir o sol de Portugal e a banda esmerou-se na rendição deste clássico; “No Fun” deu origem a uma das maiores sessões de mosh do festival até agora e “God Save The Queen” fez – ainda faz – todo o sentido nos seus cuspidos três minutos de raiva. Braços e cervejas no ar deram razão aos Sex Pistols, uns quantos corpos se seguiram, projectando-se no ar ao som de “no futuuure…”.

Com o primeiro encore chegaram “Bodies” (“o vosso entusiasmo é ensurdecedor”, troçou Rotten) e o momento mais insólito do concerto: três espectadores conseguem invadir o palco e, ao invés de os congratular/desfazer/mastigar, Johnny Rotten dá-lhes um raspanete e ameaça que, sem respeito, não continua a fazer o seu trabalho. Apesar do choque (Rotten, o moralista?!), ainda houve presença de espírito para festejar “Anarchy In The UK”, naturalmente o ponto alto do espectáculo e aquele que deveria ter sido o seu desfecho. Mas os Sex Pistols voltariam ainda para um segundo encore, com “Silver Machine”, dos Hawkwind, e “Roadrunner”, dos Modern Lovers, quebrando de certa forma o ritmo de um concerto já de si algo desequilibrado.

No fim, ouvimos de tudo: desde fãs desolados por a banda ter tocado de forma demasiado lenta a espectadores tão combalidos com a despedida que já nem queriam ficar para o after-hours, ameaçando numa espécie de birra: “Vou já é para a tenda!”. Não consta, ainda assim, que algum se tenha arrependido de ver os Sex Pistols em 2008. Isso já ninguém lhes tira.

Texto de Lia Pereira
Fotos de Miguel Puga

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